(tradução) Sadomasoquismo: Isso não é sobre censura. Uma entrevista com Audre Lorde.

por menstruakill

By Susan Leigh Star

(As published in A Burst of Light: Essays by Audre Lorde, 1988, Firebrand Books)

”Sem uma avaliação rigorosa e consistente de que tipo de futuro que queremos criar e sem uma
examaminação das expressões do poder que escolhemos para incorporar nos nossos
relacionamentos , incluindo os mais íntimos , não estamos progredindo , mas apenas a reformulando os próprios personagens do mesmo velho drama.”

——————————————————————————————–

S/M não é a partilha do poder, é uma mera repetição da velha e destrutiva dicotomia dominante/subordinado das relações humanas de um poder unilateral, o que está, agora, transformando nossa terra e nossa consciência humana em pó.

———————————————————————————————

  Passei junho e julho de 1980, em Vermont. Eu ensino lá durante verões e invernos. Uma tarde, Sue (outro professor) e eu estávamos tomando banho de Sol num estaleiro no meio de um pequeno lago. De repente, imaginei como seria ver alguém vestido em couro preto e correntes, galopando pelo campo, como eu costumava ver no meu bairro urbano em San Francisco. Eu comecei a rir sobre como um dos parâmetros sobre o teatro do sadomasoquismo se tornou claro; isso é sobre cidades e uma cultura criada, como o punk rock, que é sustentada por uma tecnologia particularmente urbana. No final da semana, Sue e eu dirigimos por estradas de terra esburacadas longe de ‘Northeast Kingdom’, a área mais rural de Vermot, para entrevistar Audre Lorde. Mais uma vez fiquei impressionada com a incongruência de se sentar sob o Sol radiante, com a radiante Audre e Frances e Sue, ouvindo bobwhites e assistindo a neblina no vale, e o tema da nossa conversa parecia pertencer a outro mundo. Eu incluí esta descrição do ambiente físico que estávamos, porque me parece importante reconhecer que todas as conversas sobre sadomasoquismo ocorrem em determinados locais e em determinados momentos históricos, que devem ser observados e comparados.

———————————————————————————————————————–

Leigh: Como você vê o fenômeno do sadomasoquismo na comunidade lésbica?

Audre : O sadomasoquismo na comunidade lésbica feminista não pode ser visto como algo separado das questões econômicas e sociais mais amplas que cercam nossas comunidades. É o reflexo de uma tendência social e econômica deste país. Infelizmente, o sadomasoquismo parece confortável para algumas pessoas neste período de desenvolvimento . Qual é a natureza desse fascínio ? Por que existe uma ênfase no sadomasoquismo na mídia hetero? Sadomasoquismo é congruente com outros desenvolvimentos em curso neste país que tem a ver com dominação e submissão, com poderes politicos, culturais e economicos. A atenção que Samois (a organização de S/M lésbica de San Francisco) está recebendo é provavelmente fora da proporção com a representação de sadomasoquismo na comunidade lésbica. O uso de Beca do S/M na cultura dominante é uma tentativa de “recuperar ” , em vez de questionar. É uma desculpa para não olhar para o conteúdo do comportamento. Por exemplo : “Nós somos lésbicas fazendo essa coisa extrema e você está nos criticando!”. Assim, o sadomasoquismo é usado para deslegitimar o feminismo lésbico , lesbianismo e feminismo.

Leigh: Então, você está dizendo que a mídia hetero ajuda a ampliar o fenômeno (do sadomasoquismo) com a comunidade lésbica e que esse foco deles nas lésbicas, em particular, é um modo de não lidar com as maiores implicações e a própria existência do fenômeno no mundo?

Audre: Sim. E porque esta perspectiva de poder é uma parte do mundo, é difícil criticar isoladamente. Como Erich Fromm disse uma vez: ”O fato de milhões de pessoas participarem de uma ilusão, não a torna saudável”.

Leigh : E o que você acha da doutrina do ” viva e deixe viver ”  e das questões de liberdades civis?

Audre : Eu não vejo isso como um ponto . Eu não estou questionando o direito de ninguém de viver. Eu estou dizendo que devemos observar as implicações disso em nossas vidas. Se o que estamos falando é sobre o feminismo , então o pessoal é político e tudo o que fazemos nas nossas vidas pessoais pode ser colocada para uma análise. Fomos criadas em uma sociedade doente, anormal, e nós devemos estar no processo de busca por nós mesmas. Isto é complexo . Não falo de condenação, mas sim de questionar o que está acontecendo e o que isso significa. Eu não estou disposta a restringir a vida de ninguém, mas se formos analisar as relações humanas, devemos estar dispostas a analisar todos os aspectos dessas relações. A revolução é sobre nós, nossas vidas. Sadomasoquismo é uma celebração institucionalizada das relações de dominante/subordinado e nos prepara para aceitar qualquer subordinação ou para impor qualquer domínio . Mesmo no ”jogo”, afirmar que o exercício do poder sobre impotência é erótico, é capacitar , é estender o estágio emocional e social desse relacionamento , politicamente , socialmente e economicamente . Sadomasoquismo alimenta a crença de que a dominação é inevitável e legitimamente agradável. Ele pode ser comparado ao fenômeno de adorar a divindade com duas faces , e adorar somente a parte branca na lua, como se fosse separada. Mas você não pode separar qualquer aspecto da sua vida das suas implicações (politicas e sociais). É isso que integridade significa.

Leigh: Isso tem relação com dois principais argumentos apresentados pelas mulheres da Samois: que a tolerância liberal é necessária no campo da sexualidade e que o poder sobre parte do relacionamento está confinado ao quarto. Sinto, assim como você, que é perigoso tentar isolar essa parte importante da nossa vida.

Audre: Se isso está e fica ”entre quatro paredes”, então por que o livreto da Samois (What Color is Your Handkerchief?: A Lesbian S/M Sexuality Reader) foi impresso? Se não está (entre quatro paredes), então, o que isso significa? É do interesse de um patriarcado capitalista que nós privatizemos grande parte da nossa experiência. A fim de fazer escolhas de vida íntegras, devemos abrir as comportas de nossas vidas, criar consistência emocional. Isso não significa dizer que nós agimos da mesma forma, ou não mudamos e crescemos, mas sim que existe uma integridade subjacente que se afirma em todas as nossas ações. Nenhuma de nós é perfeita, ou nasce com essa integridade, mas podemos trabalhar nisso como uma meta.

O erótico tece através de nossas vidas, e integridade é uma condição básica que nós aspiramos. Se não temos as lições de nossa jornada em direção a essa condição, então não temos nada. A partir dessa visão, cada um é livre para examinar caminhos diferentes de comportamento. Mas integridade tem de ser uma base para essa jornada. Certas coisas em todas as sociedades são definidas como totalmente destrutivas. O liberalismo permite a pornografia e permitiu que homens batessem nas esposas como direitos da Primeira Emenda. Mas isso não se encaixa na minha concepção de vida, inclusive, isso ameaça diretamente minha vida. As perguntas que eu faço são: Quem está lucrando com isso? Quando sadomasoquismo se apresentou como um conflito no movimento feminista?  Que conflitos não estão sendo apresentados?

Leigh: Como você acha que o sadomasoquismo se iniciou? Qual é a raiz disso tudo?

Audre: No molde superior/inferior, que é passada para nós nos níveis mais profundos. A intolerância aprendida sobre as diferenças.

As pessoas envolvidas com o sadomasoquismo estão agindo conforme os padrões de intolerância de diferenças que aprendemos: superioridade e o direito de dominar. O conflito é supostamente a acusação de estarmos reprimindo suas práticas ou desejos, pois isso ocorre entre quatro paredes. Eu me pergunto se sou puritana nesse assunto. Eu tenho me perguntado isso com muito cuidado e  a resposta é  que não sou. Eu sinto que nós trabalhamos para a tomada de decisões de vida integrados e essas decisões nos levam a outras decisões e compromissos de certos modos de ver o mundo, em busca de mudança. Se eles não nos levam em direção ao crescimento e a mudança, não temos nada para construir em cima, estamos sem futuro.

 Leigh: Você acha que o sadomasoquismo é diferente para homens gays e para lésbicas?

Audre: Quem lucra com lésbicas batendo umas nas outras? Os homens brancos foram levados a acreditar que eles são Deus, os homens brancos gays são ”marginais” em apenas um aspecto. Grande parte do movimento gay branco busca ser incluído no ”sonho americano” e ficam furiosos quando eles não recebem os privilégios masculinos brancos padrões, conhecidos como “democracia americana”.

Na maioria das vezes, homens gays brancos não buscam a quebra do sistema. Essa é uma razão pela qual o movimento gay é tão centralizado nos brancos. Homens negros gays reconhecem, pela sobrevivência, que por serem negros, não serão incluídos da mesma forma. A divisão entre homens gays negros e brancos está sendo examinada e explorada por alguns. Recentemente, por exemplo, houve um encontro de lésbicas e gays do ”Terceiro Mundo”, em Washingoton. Eles (homens gays negros) reconheceram que existem coisas que não compartilham com as lésbicas e os homens gays brancos, assim como as coisas que fazemos, e que o esclarecimento entre todos é necessário.

Não vejo nenhuma batalha essencial entre locais de homens gays e de homens não gays brancos. Com certeza, existem homens gays que não veem suas opressões como coisas isoladas e trabalham na construção de um novo futuro. Mas é uma questão de política da maioria, muitos homens brancos homossexuais estão sendo puxados pelas mesmas cordas como outros homens brancos na sociedade.

Leigh: Então, uma das coisas que você está dizendo é que as políticas de S/M estão ligadas com a política dos movimentos de maior dimensão?

Audre: Eu não acredito que a sexualidade é separada da vida. Como uma mulher de minoria, eu sei que dominação e subordinação não são ”questões de quarto” apenas. Da mesma forma que o estupro não é sobre sexo, S/M não é sobre sexo, mas sobre como usamos o poder. Se fosse apenas sobre o ato sexual ou sobre particularidades, por que seria apresentada como uma questão política?

 

Leigh: Eu, frequentemente, sinto que existe uma espécie de tirania em relação ao conceito de sentimentos, se você sente alguma coisa você precisa tomar uma atitude.

Audre: Você não se sente um tanque ou uma guerra. Você sente ódio ou amor. Os sentimentos não são errados, mas você é responsável pelo comportamento que você usa para satisfazer esses sentimentos.

 

Leigh:  E o que você diz sobre como a Samois ou outras lésbicas sadomasoquistas usam o conceito de poder?

Audre: O conceito sadomasoquista do sexo ”baunilha” (sexo não S/M), é que é um sexo desprovido de paixão. Com isso, estão afirmando que não existe paixão sem desigualdade de poder. Isso soa muito triste e destrutivo para mim. A relação da paixão com a dicotomia dominação/subordinação é o protótipo da imagem heterossexual de macho/fêmea, que é usada para justificar a pornografia. ‘Mulheres devem amar sendo brutalizadas ou humilhadas’. Essa também é a justificativa usada para todas as relações de opressão que o subordinado, que é ”diferente”, gosta da posição de inferioridade.

O movimento gay masculino é investido entre pornografia gay S/M e pornografia heterossexual. Homens gays podem se dar o privilégio de não ver as consequências. Nós, enquanto mulheres e feministas, temos que colocar nossas ações para análise conjunta e ver no que elas implicam e no que são baseadas.  Enquanto mulheres, temos sido treinadas para seguir. Temos de olhar para o fenômeno do S/M e nos educarmos, e ao mesmo tempo estarmos cientes das manipulações internas e externas.

Leigh: Como isso se relaciona com o feminismo-lésbico?

Audre: Em primeiro lugar devemos nos perguntar se toda essa questão de S/M na comunidade lésbica, talvez, possa ser utilizada para chamar a atenção de outras questões mais urgentes e imediatas de risco de vida que enfrentamos como mulheres neste racista e conservador e período de repressão.  É uma pista falsa? A cortina de fumaça para provocadores? Em segundo lugar, S/M lésbico não é sobre o que você faz na cama, assim como lesbianismo não é simplesmente uma preferência sexual. Por exemplo, o trabalho de Barbara Smith em mulheres-identificadas mulheres, sobre as experiências “lésbicas” em
Zora Hurston ou Toni Morrison. Não é com quem durmo que define a qualidade desses atos, mas sim o que as minhas relações íntimas e eróticas me levam a ser. Como é que a nossa sexualidade nos empodera e fortalece nossas ações?

 

Notes

1. Audre Lorde, “Letter to the Editor,” Gay Community News 7:37 (April 12, 1980), p. 4.

2. Barbara Smith, “Toward a Black Feminist Criticism,” Conditions Two (October 1977), pp. 25-44.

Original em: http://www.feminist-reprise.org/docs/lordesm.htm

Anúncios